TEMPOS MODERNOS - Paulo Aliende


Juliana Amaral lança 4º disco e faz show memorável!

21/09/2017 | 11:19 h

“Açoite”, novo trabalho de Juliana foi lançado em 2016, pelo Selo Circus, da Circus Produções Culturais, escritório de produção cultural onde trabalho. Ali, convivo com grandes artistas, dentre eles Juliana, que além de cantora é nossa parceira em muitas outras áreas.

Já estava há muito querendo ver esse show e coincidentemente, sempre havia uma razão qualquer que me impedia de vê-lo. Pois bem, consegui assistir ao show no teatro da Galeria Olido, na sexta-feira passada.

Juliana faz uma coisa que adoro. Fala de suas escolhas musicais, traz o espectador pra junto delas e o insere no contexto do repertório escolhido.

“A tristeza é senhora, desde que o samba é samba é assim!”

Não, Juliana não canta essa, mas já no início do espetáculo, conecta o samba à tristeza. Juliana que é uma cantora que tem no samba, grande parte do seu repertório, escolhe para esse “Açoite” muitas outras coisas além do samba. Ali estão composições novas autorais e de outros autores, e clássicos como “Léo”, de Milton Nascimento e Chico Buarque de Holanda; “Carta”, de Tom Zé e “Trem pras Estrelas”, de Gilberto Gil e Cazuza.

O show é aberto com Juliana cantando “Samba do Vassalo”, de Ataulfo Alves, onde o compositor logo vai dizendo que o samba não lhe quis moderno. Mas quem disse que moderno não pode ser contemporâneo? O repertório do show que traz ali certamente de 50 a 60 anos de música brasileira, faz um panorama da situação crítica onde o Brasil, e por que não dizer, o mundo se encontra. Essa caos absoluto onde está explícita a falta de encontro, de amor, a falta de respeito, de consciência, de tolerância e tantas outras coisas. Vivemos num mundo onde a ganância é a direção escolhida pelos seus governantes.

“Rio de Lágrimas”, de Tião Carreiro, Piraci e Lourival dos Santos entra na sequência e já me emociona. Eu costumava ouvir e cantar essa canção quando era criança. Ouvia da garganta de Inezita Barroso. Sempre gostei dessa música. Agora, gosto ainda mais. Claro, que me emocionei, pois a letra ganha outros contornos nesse momento conturbado em que vivemos. “O rio de Piracicaba, vai jogar água pra fora, quando chegar a água, dos olhos de alguém que chora...Lá no bairro que eu moro, só existe uma nascente, a nascente dos meus olhos, já formou água corrente.”

Pra quem se importa com o rumo que a humanidade está tomando, como eu, não há como não se emocionar ao ouvir a voz maravilhosa de Juliana cantando essa moda caipira. Há ainda mais uma desse cancioneiro popular, que é “Padecimento” de Carreirinho, onde Juliana faz um dueto com João Paulo Amaral, seu irmão e diretor musical do disco e show. João Paulo arrasa nos arranjos. Além disso, Juliana e João Paulo se cercam de um grupo de músicos incríveis da cena musical paulistana: Alberto Luccas (contrabaixo acústico), Gustavo Bugni (teclados), Rodrigo Digão Braz (bateria), além do próprio João Paulo Amaral (viola caipira, violão e guitarra).

Dá vontade de falar de canção por canção. Há uma costura que permeia o conjunto de peças musicais, de onde Juliana tira de sua garganta, notas extremamente precisas e nos conquista a cada momento do show.

Mas quando cantou “Léo”, de Milton e Chico, devo confessar que me emocionei de encher os olhos de lágrimas. “...Um plano de vôo e um segredo na boca, um ideal, um bicho na toca e o perigo por perto, uma pedra, um punhal, um olho desperto e um olho vazado, Léo...Um olho vazado e um tempo de guerra, um paiol, um nome na serra e um nome no muro, a quebrada do sol, um tiro no escuro e um corpo na lama, Léo...”

Saí do show com uma estranha sensação. Um misto de alegria e tristeza. Tristeza pela constatação do pobre quadro em que nos encontramos nesse momento ao qual o show nos remete, o tempo todo. Alegria por ver tanta beleza na tristeza e em quem a canta ou fala sobre ela das formas mais sutis, poéticas e sábias.

“Açoite” nos remete a tudo isso e nos faz sair do show com vontade de dizer ao mundo que quem não conhece Juliana não sabe o que está perdendo. Quem não conhece Juliana está se perdendo, como o mundo, que pouco conhece Juliana. Então, se ouvirem falar de Juliana Amaral, saiam de casa correndo pra assistir ao show de uma cantora excepcional que sabe o que quer dizer e cantar.

Nesse momento, Juliana canta a tristeza do mundo que se a conhecesse melhor, talvez fosse proporcionalmente melhor.

E a tristeza é mesmo senhora, desde que o samba é samba. A beleza é senhora, desde que Juliana é Juliana.


Link - “Léo”: http://www.youtube.com/watch?v=obfwNaASYys




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